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Nos dias 1 a 3 de setembro de 2010 o programa Construindo a Democracia Global (Building Global Democracy, BGD) convocou um debate em Déli, Índia para explorar processos de aprendizagem capazes de reforçar a democracia num mundo mais globalizado. A oficina foi uma das principais atividades do projeto do BGD, Aprendizagem Cidadã para a Democracia Global.
Em conformidade com o objetivo do BGD de promover engajamentos verdadeiramente globais, o debate de Déli envolveu 50 pessoas de 28 países de todas as regiões do mundo. O grupo também foi ricamente heterogêneo em termos de faixa etária, cultura, gênero, orientação política, raça e profissão.
O presente comunicado pretende oferecer a públicos maiores uma flavour#ideia do que foram estes três dias de intercâmbio. Nenhum resumo pode capturar todo o alcance e toda a profundidade das conversações. O presente documento também não apresenta nenhuma declaração consensual dos participantes. Ao contrário, as deliberações foram ainda mais interessantes e produtivas graças a suas tantas diversidades e dissonâncias.
Para uma exploração mais completa das questões, este relato dos debates acerca da aprendizagem para a democracia global pode ser lido em conjunto com o resumo da oficina BGD anterior, realizada no Cairo, sobre questões de Conceitualização da Democracia Global. Outros passos na jornada BGD serão dados em oficinas futuras.
1. Na oficina de Déli, assim como no colóquio anterior do Cairo, revelou-se muita ambiguidade e contestação em torno de conceitos-chave da BGD, inclusive neste caso ‘cidadania’, ‘aprendizagem’, ‘global’ e ‘democracia’. É possível argumentar que estes termos carecem de uma significativa renovação no contexto da construção da democracia global.
2. A aprendizagem não reforça necessariamente a democracia global. As qualidades dos processos particulares de aprendizagem são primordiais para se verificar se, por seu intermédio, a democracia global avançou ou não.
3. Algumas vezes desaprender é igualmente importante para a democracia global, por exemplo, com relação a hábitos de preconceito, ódio, violência e degradação ecológica. Desaprender ‘valores tradicionais’ antidemocráticos e/ou o conhecimento imposto colonialmente também se faz necessário em muitas partes do mundo.
4. Para avaliar as implicações, para a democracia global, de um ou outro processo de aprendizagem, é fundamental levantar uma série de questões críticas: o que se aprende, quem aprende e de quem se aprende, como se aprende, para que finalidades e com que consequencias?
5. Quanto à aprendizagem para a democracia global, é particularmente importante resistir ao etnocentrismo e ao neo-colonialismo, onde forças dominantes (inclusive algumas ONGs transnacionais) tentam ‘ensinar’ e ‘civilizar’ grupos subalternos.
6. Visto que a democracia global se encontra atualmente em grande parte fraca e ausente, a aprendizagem para ela não pode ser ajustada para a manutenção do status quo mas, ao contrário, precisa promover processos de empoderamento social e transformação política. Em particular, estes processos de aprendizagem podem promover o desenvolvimento de novos tipos de identidade, solidariedade e cidadania para um mundo mais global.
7. Os exercícios de aprendizagem para a democracia global devem atender ao contexto no qual ocorrem. Em outras palavras, a aprendizagem precisa atentar para#lidar com as condições culturais, ecológicas, geográficas, políticas, socioeconômicas e sócio-psicológicas dos que estão aprendendo. Não existe um modelo único que sirva para todos em todos os lugares, uma vez que pessoas vêm aprender para a democracia global de diferentes pontos de partida.
8. Nos processos de aprendizagem para a democracia global é especialmente importante promover o reconhecimento, a voz e a influência dos círculos subordinados (inclusive em termos de faixa etária, casta, classe social, país, cultura, gênero, raça).
9. A aprendizagem pode fomentar especialmente a democracia global quando alimenta solidariedades, mobilizações e auto-determinações de círculos subordinados que acontecem de baixo para cima.
10. A aprendizagem para a democracia global pode beneficiar-se amplamente do desenvolvimento de redes e alianças entre grupos.
11. As iniciativas contemporâneas de aprendizagem para a democracia global podem servir-se da rica experiência intelectual e política das solidariedades internacionais de outras épocas, inclusive do internacionalismo trabalhista, do internacionalismo de mulheres, e de movimentos anticoloniais internacionais.
12. A aprendizagem para a democracia global pode ser mais eficaz quando os processos alimentam e combinam diversas práticas. Exercícios informais auto-organizados podem ser construtivos, assim como a escolaridade oficial. A aprendizagem pela ação pode complementar a aprendizagem pelo estudo.
13. As universidades podem desempenhar um papel chave na democratização da aprendizagem dentro da política global. Em particular, as universidades estão desafiadas a se abrir a movimentos subalternos. Por um lado, isto significa tornar a aprendizagem universitária mais disponível a estes círculos subordinados. Por outro lado, significa incorporar sabedorias dos movimentos subalternos e com isso democratizar o conhecimento que as universidades produzem.
14. A aprendizagem eficaz para a democracia global precisa alimentar várias competências básicas: linguísticas, discursivas, de informação e mídia, visuais, tecnológicas, financeiras, e emocionais.
15. A capacidade de escuta (em particular diversidades e oponentes) constitui uma habilidade chave que deve ser aprendida para a promoção da democracia global. E isto implica numa escuta mais profunda que ouve o outro, entra em empatia com ele e lhe responde mais plenamente. A verdadeira escuta pode mudar a compreensão do ouvinte tanto sobre si mesmo como sobre aqueles a quem ouve. Significa estar pronto para a transformação mútua e ampla. Tal escuta é uma habilidade que deve ser cultivada especialmente entre pessoas em posição de maior poder.
16. A crítica – ou seja, a habilidade e confiança de questionar, desafiar, debater, renomear – é uma capacidade vital que deve ser cultivada na aprendizagem para a democracia global.
17. É primordial identificar e avaliar criticamente as influências que poderosas agências reguladoras (inclusive, por exemplo, o estado e as instituições religiosas) e estruturas sociais mais profundas (como o capitalismo e a modernidade) exercem sobre a aprendizagem para a democracia global.
18. As mulheres têm contribuições importantes (e via de regra subestimadas) a dar nos processos de aprendizagem para a democracia global. Se as mulheres forem realmente ouvidas, diferentes prioridades poderiam ser definidas e práticas democráticas alteradas, de maneira a incluir mais plenamente seu pensamento.
19. A aprendizagem para a democracia global precisa considerar as perspectivas, necessidades e pontos fortes possivelmente característicos da juventude.
20. A aprendizagem para a democracia global deve ser, ela própria, um processo democrático, com a plena participação dos que estão aprendendo e responsabilização perante os mesmos. Os próprios alunos desempenham um papel chave e integralmente respeitado ao se determinar o que e como se aprende.
21. A aprendizagem conforme esboçado aqui pode promover as ideias e práticas mais amplas da democracia global buscadas em outros projetos BGD.
Grupo Convocatório BGD
Setembro 2010
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